A tradição do Sertanejo no Brasil só cresce e é um dos estilos mais ouvidos em 2020

Trata-se do sertanejo. Em Goiânia, a capital da música country do Brasil (a cerca de 200 km de Brasília), Jorge & Mateus, uma das duplas de maior sucesso do momento, saem do palco envoltos em luzes do diodo EMISSOR de luz, fumaça e gritos ensurdecedores do público. A dupla é só uma das que consta na lista dos hits sartanejos 2020 que inclui além dos sertanejos universitários com cada vez mais duplas diferenciadas, também os modões de viola com uma pitada mais internacional.

Com um visual de cowboy moderno -corpos fortes, jeans skinny, camisas com estampas, barba delineada e cabelo com efeito molhado-, fazem vibrar os seus fãs com canções de amor e desengano que acabam em músicas sertanejas. 

“São, essencialmente, músicas românticas, letras de músicas românticas, que trazem energia positiva, que falam de paz e amor”, resume Mateus, de 30 anos e barba “hipster”, que com sua voz e sua guitarra faz suspirar a milhares de mulheres a partir de sua irrupção na cena em 2005.

Das 100 músicas mais tocadas no ano passado nas rádios do Brasil, 75 pertencem ao gênero sertanejo, de acordo com um ranking da empresa Crowley, especializada na indústria musical.

Com duetos de homens, de mulheres, mistos, de irmãos e até de casais, estes grupos são também os que mais tocam nas boates e nas cortinas musicais das novelas e estão entre os artistas que mais arrecadam dinheiro por direitos de autor, com nomes lendários como Caetano Veloso e Tim Maia.

Longe da imagem da exuberância tropical e o país da bossa nova que o Brasil irradió para o mundo nos anos 60, o sertanejo tem uma raiz no país profundo, do interior.

A música “sertaneja” (do “sertão”, uma árida região afastada da costa e dos centros urbanos) tem pelo menos um século de existência, mas a partir dos anos 80 e 90 se transformou em um fenômeno de massa, com megaespectáculos organizados por grupos ligados ao agronegócio em torno de eventos e feiras.

Com elementos de pop internacional -encarnado no Brasil, na figura de Roberto Carlos – e de música country norte-americano e com personagens típicos do meio rural, alguns duetos começaram a abrir caminho no mercado. Suas músicas combinam amor pela “terra”, e um estilo adaptado à vida na cidade, capaz de indicar a pujança desse meio rural industrializado.

Por isso, usam um tipo de roupa que já não aponta mais para o estritamente camponês; vestem jeans, como se fossem cowboys norte-americanos, com várias insígnias, que mostram que têm acesso ao dinheiro.

Os instrumentos e a qualidade dos espetáculos também se diversificaram: as tradicionais violão e acordeão foram incorporando elementos do rock, como guitarra e bateria, bem como teclados e elementos de música eletrônica.

“Sentimos que a música não podia ficar só naquele estilo acústico, que vinha do campo”, conta à AFP José de Lima Sobrinho, integrante da dupla de irmãos Chitaozinho e Xororó, originários do Paraná (sul), que quebraram recordes de vendas nos anos 90.

Seu bem-sucedido álbum “Cowboy do asfalto” (1990), condensa-se na perfeição essa mistura de raízes rurais e progresso industrial.

Após mais de quatro décadas de carreira, Chitaozinho e Xororó continuam no palco cantando seus hits”, que falam de histórias de amor, mas também a saudade de uma terra idílica, da vida no campo, ancorada em valores tradicionais.